OS HERDEIROS DA PENA
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COLO DE MÃE

COLO DE MÃE

Mais um dia se inicia na minha janela para os elefantes. Tomo meu café algo apressada… Estava ansiosa por atender mais um dos tantos assistidos, desta vez à pedido do diretor da unidade…

Manoel era um homem incomum. Sempre pronto a ajudar. Fosse o guarda penitenciário fosse o preso em dificuldades, ali estava um homem extraordinário, simples e cheio de boa vontade com o próximo. Havia me adotado como pupila e era um entusiasta do meu esforço na luta pela liberdade dos detentos. Foi um diretor como poucos que veria em mais de 20 anos.

O preso era alguém muito debilitado. Cuidava-se de um pleito de indulto humanitário.

Enquanto examinava os papéis que me haviam sido encaminhados ergo a cabeça e vejo pela primeira vez Luiz Carlos. Era um homem branco, alto e de olhos claros. A magreza era assustadora. Vinha caminhando com dificuldades auxiliado por dois outros detentos.

A documentação médica a mim enviada dava conta de um diagnóstico de HIV soro positivo e diversas intercorrências de infecções e doenças respiratórias.

Colocado na cadeira ele se ajeita e começa a me contar a sua história. Fora condenado em mais de 15 processos por estelionato. Já estava preso havia mais de 8 anos e não recebia visitas.

Logo me sensibilizei com a situação dele, porque naquela condição de saúde não duraria muito. Indaguei sobre parentes, companheira, alguém que pudesse estar com ele nesses momentos difíceis. Luiz me disse que essa era a maior angustia de sua mãe, Dona Isaura. Queria vê-lo, mas ele não permitia.

É que se cuidava de uma senhora de quase 90 anos. Ele não queria vê-la submetida ao vexame da revista íntima com aquela idade.

Angustiada cheguei a indagar do Diretor se ele não poderia intervir e poupar a idosa do procedimento. Infelizmente cuidava-se de um padrão de segurança que ele mesmo não concordava, mas nada podia fazer. Ele dava notícias da saúde do filho a idosa por telefone e ela mandava notícias de igual modo.

Apesar da doença Luiz era um homem de bom ânimo, cheio de entusiasmo, coisa difícil pra quem experimentava aquele suplício.

Os dias foram passando e o processo de execução penal seguia com a instrução preparada para o indulto de Luiz.

Chego a unidade e Luiz é trazido a minha presença muito debilitado. Nos braços de outro detento ele é colocado deitado no banco de Madeira da minha sala. Levanto num pulo da cadeira e vou até ele e abaixada ao seu lado faço o atendimento.

O processo estava novamente no ministério público, cumpridas as muitas exigências por ele requeridas. Ele me diz abatido que tudo que queria era poder abraçar a sua mãe uma última vez.

O preso o leva embora e eu já com o rosto completamente coberto de lágrimas corro apressada a sala do diretor. Temia que a liberdade não pudesse chegar ainda na vida do apenado.

Naquele dia cancelaria os atendimentos para partir rumo ao ministério público onde tentaria sensibilizar o coração de uma promotora conhecida por sua dureza.

Sigo apressada, chego ao gabinete da representante do parquet e relato a minha angústia e a urgência. O processo estava ali havia dois dias. Sou atendida com a formalidade com que a promotora atendia a todos. Ao final da minha explanação ouço: “meu prazo é de cindo dias doutora, peço que aguarde”. Ela aponta para uma pilha grande de processos que estava na estante em frente.

Aos prantos deixo a sala.

Reflito sobre a condição humana do sentenciado que é um sepultado vivo como dizia Carnelluti.

Ainda com o rosto inchado daquele choro compulsivo procuro o juiz titular e relato todo o drama de Luiz. Sensibilizado o magistrado promete uma solução imediata e me pede que retorne ao final da tarde.

No fim do dia recebo nas mãos a decisão: o indulto de Luiz.

No dia seguinte bem cedo chego animada ao Galpão. Peço ao Guarda que vá buscar apenas Luiz para que pudesse vê-lo, o oficial viria ainda naquele dia para soltá-lo por recomendação do magistrado.

Ele não tinha condições de levantar. Pergunto da possibilidade de me levarem até ele. Sou advertida de que na enfermaria haviam 2 presos com tuberculose que aguardavam transferência e que não seria salutar. Assumi o risco e pedi que me levassem até ele.

-Luiz recebe a notícia deitado numa maca e chora copiosamente agradecendo.

Naquela semana eu não voltaria mais.

Passada uma semana sou chamada a sala do Diretor.

Na mesa o telefone com o gancho para baixo e Manoel com os olhos marejados me diz: “atenda, é a Dona Isaura, mãe de Luiz”.

Ao atender ela me conta do dia da liberdade e da imensa alegria daquele reencontro. Ela me diz do quanto ele tinha se arrependido dos crimes e do quanto sofrera com a doença na prisão. E por fim me conta do seu falecimento. Eu perco o equilíbrio e me sento na cadeira em frente a mesa do Diretor. Aos prantos indago sobre o dia da morte. Ela prossegue dizendo que ele morrera dois dias depois de sua liberdade e me agradece em nome dele. Ela me conta que morreu em seus braços como queria e que a liberdade lhe permitiu ao menos pela última vez estar no melhor lugar do mundo: O COLO DA MÃE.

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