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O Sacrifício da vida e a metáfora cristã da cruz

O Sacrifício da vida e a metáfora cristã da cruz

(Por Flávia Fróes e Anna Pinheiro)

No mundo ocidental o simbolismo da cruz e o sacrifício do Cristo em prol da salvação humana permite interpretações muito diversas daquela decorrente da biografia original do martírio de Jesus.

A idéia de se morrer por uma causa no imaginário popular religioso dá azo a ações manifestamente radicais de cunho fundamentalista.

Em que pese as supostas razões para determinadas ações radicais serem aparentemente legítimas , a sua execução com o sacrifício humano as torna injustificáveis.

Lendo “Nossas Horas Felizes”, sobre um preso no corredor da morte, nos deparamos com a reflexão do guarda que menciona que ao ver o criminoso no jornal o tem como um animal, mas quando passa a conhecê-lo percebe que humanamente todos são iguais no fundo. Ao assistir uma execução entendia o quanto tal ato era equivocado independente do crime que a havia legitimado.

A vida humana é um valor indisponível. Quando para a busca de um direito se pretende dispor de tal valor supremo, qualquer que seja o direito, o sacrifício se torna ilegítimo.

Não se pode escolher entre vidas. Na verdade, enquanto o valor humano for submetido à qualquer forma de barganha essa terá sido ainda mais cruel do que a violação do direito.

Romantizar o sacrifício capital e tornar bela a morte por uma causa é inserir a culpa como instrumento de perpetuação de uma cultura que impõe a justificação da morte por razão nobre sem que ela seja efetivamente necessária ou o único meio de resolução dos conflitos humanos.

A solidariedade não se demonstra com ações radiciais e sem resultado prático.

Nesta última semana, enquanto
uma greve de fome impõe o sacrifício da vida em prol de uma causa, vemos o quanto o desvalor ao humano e a metáfora da cruz ainda justificam ações humanas

Enquanto isso ouve-se das autoridades que as vidas das quais os grevistas estão dispondo são aquelas que nem a eles mesmos importa. Se a vida,nessa cruzada, é usada como moeda de troca por uma causa na qual se espera que terceiro se apiede, é o proponente quem primeiro afirma o desvalor da própria existência.

Num mundo onde os valores humanos são flexibilizados de acordo com uma vontade, a própria dignidade da pessoa humana passa a ser um valor relativo.

Relativizar a vida humana, sob qualquer pretexto seria transigir com a barbárie.

Não há vidas que importem mais do que outras. Afirmar isso com ações é um caminho perigoso para tempos ainda mais sombrios.

Que a metáfora da cruz enquanto instrumento simbólico sirva apenas de inspiração para a redenção.

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