A Crônica de Heráclito e o Rio no Sistema Penitenciário Federal
Abril 30, 2019
O Leite da liberdade
Abril 30, 2019

O SILÊNCIO QUE MATA

O SILÊNCIO QUE MATA

Primavera na serra. Acordara cedo naquela manhã de domingo. Com uma xícara de café quente, observo as flores do jardim enquanto reflito sobre o caso que seria levado ao plenário do júri naquela semana.
Nove anos haviam se passado desde o fato que seria julgado .
Estava eu diante do meu mais difícil plenário… A ré, a quem conhecera por conta da sua prisão havia se tornado uma irmã.
O peso nos ombros de quem é chamado a socorrer, na forma mais pura do sentido da missão de ser advogado: defender como Carneluttiana aquele a quem estendera a dádiva da amizade.
Depois de cinco impetrações de habeas corpus pra dizer o óbvio, havia conseguido conquistar a justa e necessária liberdade. Passaram-se sete anos. Agora quem sentaria no banco dos réus seria a melhor amiga, aquela que desfrutava da minha amizade, da minha intimidade, sendo minha assistente pessoal.
Seria como estar eu mesma sentada no banco dos réus.
Enquanto repasso os laudos médicos de uma história de dor, marcada pela ingratidão de um homem que teve a vida salva pela acusada e que por tantas vezes atentou contra a dela e contra a sua integridade e dignidade, penso sobre como a sociedade perpetuou a impunidade de um machismo que mata.
Ela havia reagido depois de mais uma década de vilipêndio e tortura por perseguição de gênero.
Não seria uma causa fácil.
Pensava nas minhas duas filhas, na minha mãe, na minha avó, tias, enfim. A minha mente era povoada por todas as mulheres que faziam parte da minha vida.
A história dessa tragédia pessoal me devastava como poucas vezes na vida.
Enquanto preparava argumentos à vista da farta documentação que retratava a biografia de um
misógino e sua sanha de aniquilar a mulher que salvou a sua vida tantas vezes, pensava eu mesma em cada experiência que nós mulheres vivenciamos diariamente.
Havia selecionado videos sobre violência contra a mulher para justificar o ato de legítima defesa perpetrado por quem tentara sobreviver.
Aquela mulher que amou tanto, já separada, não estava livre da sanha de destruição daquele a quem a justiça intitulava “vítima”.
Chega , enfim, o dia do plenário.
À revelia da vontade da ré resolvo ouvir seu filho, por quem eu nutria um amor filial. Naquele momento viveria a inquirição mais difícil da minha carreira. E foi com o rosto coberto de lágrimas a cada pergunta e depois de cada resposta, igualmente cobertas pelas lágrimas do menino, hoje homem, que crescera sob a marca da violência doméstica praticada contra sua mãe que levaríamos a unanimidade dos jurados a conosco se debulharem num choro de revolta e indignação.
Naquele dia era por todas as mulheres que falava.
Havia convocado outras advogadas simpáticas a causa da defesa da mulher para dar voz a nossa indignação contra a violência endêmica que se estabeleceu em nossa sociedade contra a mulher, por conta de uma cultura machista.
O promotor, velho conhecido de outros tantos embates optaria naquele dia por quedar-se a pedir a absolvição.
Naquele dia, mais do que a manutenção da liberdade conquistada, era preciso entregar a acusada e a todas as mulheres a redenção do direito a não se submeter ao silêncio e à morte.
Ali estava sob julgamento séculos de uma história que se repetiria muitas vezes ainda em nossa sociedade.
O machismo mata e aniquila, mas o silêncio ainda é nosso maior inimigo.
Não se calar, seria a lição daquele dia de vitória em plenário.

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